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MISTURA DE MUNDO-TUDO



Mandengue Mandinga Quicongo

Keita Kora Koité Quimbundo

Lingalá Kimuezo Yorubá

Balafon do Mundo - Mudo.


Tambor que fala-tama

Wemba Wolof Umbundo

Rumpilé do Semba Samba

Cala o djembé do Mundo-Surdo.



Eu, índia África Sertão, escuto.

Ninguendade de Darcy

Mestiça D’Angola.

Marginal D’aqui.

Mistura de Mundo - Tudo.


Inaê Sodré

21 10 09

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DOCE SETEMBRO

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macio como colo de mãe,

eterno como um agora;

paisagem distante,

passageiro do entardecer;

oh!

essa praça vazia me fez solitário,

me fechou no espelho de tantas lembranças;

já não brinco na chuva,

já não gritam comigo;

hoje são tantos setembros

e eu sem nenhum.

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MEDO


O VIDRO, O COPO
O AÇO, A BANDEJA
O GELO, O CUBO
O ARAME
E O CORAÇÃO AMARRADO EM FIOS DE NYLON.




Por Emanuelle Chagas
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A CHUVA

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O novo barraco conquistado em um canto distante. O beijo na filha. O café da manhã. A rua descalça. A encosta do morro. Uma vereda calada. No ônibus do trampo. O rádio que fala. A notícia que soa. O trajeto que segue. A chuva. A chuva que cai. A chuva que cai e cai. A notícia que chega pelo rádio do ônibus. A Baixa do Tubo. O tubo alagado. O barraco no chão. A filha...a filha...O lençol sobre o caso encerrado. O sonho lavado em gotas de lágrimas secas de um tempo úmido. O corpo pequeno, gelado, findo sobre o chão lodoso. A lama forte soberba tomara o que era seu. A chuva continuava fria. A vereda impiedosa e voraz cantarolava um rio de desculpas para justificar sua passagem com sofreguidão. Hoje não iria trabalhar. Amanhã também não.
Por Djalma Jacobina Neto

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DON'T CRY FOR ME

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Era na esquina onde se achava o bandoneón, os olhares penetrantes, o batom carmim, Juanita Menéndez, o La cumparsita brilhando na noite baiana. Na mesa, uma figura, um tímido a esperar repetidamente, a buscar sempre a uma mulher, uma única, a que mora no tango, que nunca acha nos colos das outras, nem no fundo dos copos. Pobre Hombre, deu seu coração a uma mujer e ela o guardou numa gaveta do seu camarim.
Depois de muitas estrofes repetidas, duas paradas na noite, Juanita Menéndez com seu colo enrugado anunciou o noivado e a partida. No meio da boate, um coração parou, um corpo desfaleceu e a voz de Gardel foi estancada. Era uma figura assídua aqui na boate, se ouviu dizer.

Por Emanuelle Chagas
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BEM TE VI



Naquela manhã de sábado não havia acordado bem; uma rede de águas fluía em sua cabeça. Já não era tão assim a paz que pensava ter; as palavras lhe vinham ferinas e sem nexo. Ao lado, a mulher dormia no conforto do ar-condicionado. A vida...a vida que o tempo lhe rapinava. Filhos crescidos mundo afora e a razão perdida de ser. Ele ansioso por algo mais. O que poderia saciar aquela angústia de existir? A dor de cabeça incomodava... um analgésico já não servia; não era uma dor precisa, era uma dor do tempo. Levantou-se e cobriu a filha mais nova. Tentou se explicar pelo nada que acontecia sempre para si. Havia o amor em firulas dobradas; mola de geração ou algo de vida? Já era cúmplice da existência; contrato feito na juventude. Construíra uma vida e hoje era prisioneiro do seu próprio desconhecer no passado. Passos solenes caminhados com uma soberba ilusória. Agora ali, a espera de quê? Dor atroz, não física; uma dor de vazio, de completude vazia. Pensou em trocar o carro novo por um mais imponente. Já havia feito isso várias vezes; a que o levava a imponência do carro? Planejou, também, trocar o belo apartamento por aquele mais moderno e luxuoso...a mulher já havia lhe realçado a importância de se ter qualidade de vida. Piscina com raia, espaço fitness, brinquedoteca, movie room, espaço gourmet, solarium...Mais tarde iria ao shopping comprar um terno novo e uma jóia para a esposa; amanhã era dia das mães. Queria andar na praia...estava chovendo muito! Ligou a tevê por hábito. Notícias da chuva: alagamentos, engarrafamentos, arrastões, barracos destroçados...Um velho pedreiro chorava a perda da moradia. “Trabalho de uma vida”. Consolava-se que seu tudo era sua família; estava intacta. Deus fizera aquilo com ele. Desabafo infeliz de um momento de dor. Baixou a cabeça e remendou as palavras: clamou respeitosamente pela divindade. Talvez comprasse um Tucson igual ao do anúncio da tevê; estava um carrão. Final do ano, um cruzeiro até a Europa poderia lhe trazer a tranqüilidade. Stress de tanto trabalho. Voltou a atenção para o jornal; sob os escombros, a família soterrada de uma empregada doméstica. Móveis baratos despedaçados e a geladeira velha revirada na lama da rua do subúrbio desconhecido. Desligou a tevê e foi tomar um café. Adália estava atrasada; ainda não havia chegado para pôr a mesa...talvez devido à chuva. Pegou um iogurte, uma banana na fruteira e foi comer na mesa da varanda. No canteiro um bem-te-vi observador que cheirava as rosas denunciou sua presença no mundo e partiu alvoroçado.

Por Djalma Jacobina Neto

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Café da manhã

Primeiros raios de sol. D. Josefa já de pé preparava o café.
Patrões. Não deixava que nada faltasse à mesa para não desagradar seus patrões, que logo mais estariam ali.
De repente surgiram passos na escada àquela hora.
-Bom dia, senhora. Já de pé?
-Bom dia, Josefa; na verdade, nem dormi. Que noite péssima!
- A mesa ainda está incompleta. Não esperava a senhora tão cedo; vai querer suco ou café?
-Não sei; tanto faz. Aliás, prepare-me um chá calmante daqueles que só você sabe fazer.

Josefa notou a expressão de angústia e o rosto desfeito da sua senhora. Não era aquela criatura viva que descia as escadas cantarolando todas as manhãs. Por que mudara assim da água para o vinho? A empregada quis dar início a uma prosa, quem sabe, a patroa triste desabafasse, mas se conteve; não ousaria tamanho atrevimento. Na cozinha, tentou ligar os fatos em seu pensamento: enquanto vivia sua insônia na madrugada, Josefa ouviu passos ligeiros e desesperados no corredor e depois gemidos abafados. Sentiu que sua senhora sofria. Brigaram?! Não podia ser. Como?! Não houve discussão entre eles naquele quarto, ia com estes questionamentos quando se dirigia à sala levando na bandeja o precioso líquido para a sonâmbula.
Sala principal. Ela, debruçada sobre a mesa, tinha os olhos fixos na cesta de frutas. A ultima vez que mergulhara numa tristeza foi quando soube que não poderia dar ao marido um filho tão sonhado. Seria o fim do casamento? Ele, frente ao imenso espelho, dava os últimos ajustes na gravata.
Assim que serviu sua senhora Josefa virou-se para cumprimentá-lo:
-Bom dia ,senhor.
-Muito bom dia dona Josefa Maria, respondeu sorrindo, enquanto ajustava sua gravata de seda.
-Hoje vocês me surpreenderam tão cedo. Volto já com o café.
-Tudo bem. Hoje não tenho pressa, disse ele.
O marido resolveu sentar-se na cadeira do outro lado da mesa, ficando de frente para a mulher. Aquela distância impedia que esboçasse qualquer espécie de contato físico com ele.ali estaria seguro. Quando ergueu a cabeça,viu-a com o olhar agora fixado nele, e a sua mão direita mexia a xícara do chá ainda quente; talvez esse fosse seu ultimo recurso: o olhar. Mirava-o insistentemente como se ainda cobrasse dele: “vim em busca de amor”, mas ele continuava indiferente a tudo. Saboreava torrada.
O silêncio da sala tinha clima de velório, e a imagem daquela estatua viva diante dele o sufocava. Não suportou aquele ambiente e gritou Josefa para trazer o jornal. Enquanto o café não chegava, ele folheava as páginas, sem interesse; na verdade, não queria ler, a sua intenção era esconder-se naquele amontoado de papel. Como um flash, a cena dos dois na madrugada dominava seus pensamentos. Era uma guerra silenciosa.
Não suportou mais: o homem se levantou, verificou as horas e deu a última sacudida no terno. Resolvera não esperar o café. Precisava abandonar aquele espaço hostil; então tomou à pressas a pasta que estava sobre o sofá e se dirigiu à porta. Puxou a maçaneta, mas, antes de ganhar a rua , parou. Como dizia um velho amigo:”fazemos muitas paradas na vida”. Depois de remexer seus pertences, retirou um bloco de rascunhos e voltou ao assento da mesa. A mulher ainda tinha esperança. Ansiosa, viu seu marido escrever uma frase curta com letras bem expressivas , destacar a folha e deixar sobre a mesa o bilhete que dizia NÃO ME ESPERE PARA O JANTAR.
Por Alex Silva